sexta-feira, 9 de janeiro de 2009


puta-que-pariu-de-filme...

Sinceramente é a única coisa que me apraz dizer do filme de Lumet e, sinceramente, acho que é a mais apropriada. Petardos destes tornam todo o restante cinema americano – salvo as excepções mais do que obvias, dos velhos e de alguns, poucos, novos – coisa de crianças e brincadeiras de puto. Este ímpeto radicalmente descarnado e claustrofóbico, carregado de todo e qualquer ruído da maldade dos homens (e, importantissimo, do ar do tempo) bem como do poder do acaso, altivamente nada preocupado em violentar todas as expectativas e convenções do meio e dos espectadores, é bem capaz de ser a coisa mais essencial que o cinema americano me deu nos últimos…(desta vez a sério/menos uma estrela para todos os outros grandes filmes...)

Uma verdadeira pancada, mas uma daquelas pancadas que se agradece, por ter o condão de esbater o marasmo. De resto, estão aqui as coisas perfeitamente insólitas que eu tenho visto em cinema – não me venham com merdas e com ideias feitas de “cinema moderno”, seja francês ou chinês… – assim, sem aviso, de um velho mestre. Lumet que me acaba de mostrar que a máxima fragmentação pode conter a máxima concentração e ambiguidade, jamais imaginei que assim fosse possivél…


De resto, tudo o que acho mais correcto acerca do filme está neste texto:

Daney escreveu num texto sobre A noite dos mortos vivos de Romero a respeito do Apocalipse como um tema sub-reptício e obsessivo do cinema americano. Antes que o diabo saiba que você está morto é uma versão mais estudadamente clautrofóbica e maníaco-depressiva desta tara pela entropia –Apocalipse para dentro- que corrói a boa –consciência americana desde Intolerância, os melodramas perversos dos filmes pré-Código Haynes e que encontrou no filme noir sua variante decadentista.

Lumet acompanha com um metrônomo implacável a trajetória de danação de uma família de predadores, agora desdentados.

A câmera transita de um ponto da narrativa- e do personagem- para outro através de um recuo, reenquadramento constante que dá ao filme uma profundidade em perspectiva alucinatória. Como se este constante shifting espaço-temporal de visões estendesse a teia da danação por todos os desvãos destas superfícies tão clara, ordenada e lógicamente dispostas: o mundo da corporação.

Philip Seymour Hoffman- com um pé em Charles Laughton e outro em Bela Lugosi infantilizado- é um Mefistófeles patético, agente – e objeto- da corporação, versão contemporânea do Inferno.

A fantasmagoria da mercadoria esteve poucas vezes tão bem representada no cinema contemporâneo quanto no plano final do corredor, expiação da aura platinada do dinheiro em uma linha reta, plana e árida que conduz diretamente do Purgatório ao Inferno, sem direito a apelação.

4 comentários:

Ricardo disse...

por tudo isso é que é um dos melhores filmes do ano, para mim ficaria nos cinco primeiros, sem qualquer dúvida (e agora vem a pergunta chata) colocando (esta extraordinária força e pujança) de Lumet lada a lado com o (cansativo e académico) Entre les murs, diga-me lá que o realismo em excesso é prejudicial para o cinema, qualquer que seja o seu género ou vertente.

Luís disse...

Como é possivel a complexa e assombrosa interpretação de Philip Seymour Hoffman em "Before The Devil Knows You´re Dead" não se encontrar sequer entre os nomeados dos globos de ouro?
Fica a questão.

Vlademir lazo Corrêa disse...

Pra mim é o melhor filme que estreou no Brasil em 2008, com folga.

fes disse...

sim, é sem dúvida fenomenal!